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A MARVEL ESTARIA MUDANDO SEUS PERSONAGENS PRINCIPAIS POR CONTA DO PROCESSO DA FAMÍLIA KIRBY?

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO (MAS NEM TANTO):


Em 2017, se estivesse vivo, Jack Kirby estaria completando 100 anos. Se você não é leitor de histórias em quadrinhos – mas fã de super-heróis devido a seus filmes, games e desenhos animados – talvez não saiba quem foi esse sujeito. Nem por que ele é chamado desde os anos 60 de “THE KING”, ou mais claramente, O REI DOS QUADRINHOS norte-americanos, pelos fãs. Poisé, para os leitores de quadrinhos, Jack Kirby seria o que o Elvis é para o Rock, ou o Pelé para o futebol. Simples assim.
Pensava que esse título só poderia ser de Stan Lee, pois é ele que aparece nos filmes? Bom, pra começo de conversa foi o próprio Stan que deu esse apelido para Jack… que co-criou com ele as fundações do Universo Marvel, nos anos 60. Antes mesmo disso, Jack já era veterano reconhecidíssimo. Foi ele quem criou, em 1941, com o sócio Joe Simon, o CAPITÃO AMÉRICA (não, Stan Lee NÃO CRIOU esse personagem, ao contrário do que os fãs de filmes são levados a crer). O sucesso foi tanto que a rival DC Comics os contrataram em seguida, e lá eles criaram personagens não tão conhecidos por quem não lê quadrinhos, mas clássicos da mídia, como Guardião & a Legião Jovem, O Caçador e Boys Commandos, que chegou a ser um dos gibis mais vendidos durante a segunda guerra mundial, por ser estrelado por quatro garotos que atuavam diretamente no front de combate (um sonho juvenil de muito moleque naquela época!).


Jack teve que servir na própria guerra, e quando voltou para a casa, novamente com Joe Simon criou “Young Romance”, a primeira revista em quadrinhos com histórias românticas, e que originou dezenas de revistas similares que eram muito populares entre as meninas norte-americanas durante os anos 40, 50 e 60! Sim, o Rei já fazia gibis PARA ATINGIR UM PUBLICO ALÉM DOS MENINOS muito antes da Marvel pensar em “empoderamento”.
Num breve retorno a DC, Jack Kirby criou OS DESAFIADORES DO DESCONHECIDO, praticamente um esboço do que seria o Quarteto Fantástico, criado quatro anos depois junto com Stan Lee, e que seria a fundação do Universo Marvel propriamente dito. Uma vez que Jack criou os Desafiadores SOZINHO, e o Quarteto é quase um plágio deles, fica a pergunta de quanto do Quarteto é realmente de Lee…
Muita gente – erroneamente – considera Jack Kirby apenas o desenhista, e que o verdadeiro mérito seria do escritor – no caso Lee – quando se trata dessa polêmica. No entanto, é preciso explicar que, naquela época, e devido ao fato da Marvel ser uma micro-editora que NÃO TINHA ROTEIRISTAS contratados, Stan Lee, que era o EDITOR de todas as revistas, bolou um método para dar conta de produzir seus gibis: Ele esboçava uma sinopse mínima (o plot) no máximo em duas folhas datilografadas, e contava com o talento dos seus desenhistas para transformar isso numa HISTÓRIA EM QUADRINHOS. Assim, Jack Kirby, Steve Ditko e Don Heck (pra citar os mais importantes) eram quem decidiam como a ação acontecia, o visual dos personagens, e muitas vezes, colaboravam com a história INSERINDO IDÉIAS PRÓPRIAS.
Um bom exemplo é o SURFISTA PRATEADO. Quando Stan Lee concebeu a “Trilogia de Galactus”, inicialmente o Surfista não fazia parte da história. Quando Jack apareceu com o personagem na história, Lee perguntou quem era aquele, e Kirby simplesmente disse: “Um ser poderoso como Galactus deveria ter um emissário para anunciar sua chegada”. Stan se apaixonou tanto pelo personagem que o transformou no porta-voz das suas próprias idéias filosóficas. Mas a verdade é que herói prateado nasceu inicialmente como concepção de Kirby.
Essa forma de fazer quadrinhos foi chamada de “Método Marvel”: Após os desenhistas devolverem as histórias desenhadas, caberia então ao roteirista (no caso o próprio Lee, ou seu irmão mais novo Larry Lieber) acrescentar os diálogos, corrigindo assim eventuais discrepâncias entre o plot originalmente pensado e o resultado final. Foi dessa forma que Lee e Kirby criaram também o Incrível Hulk, Homem-Formiga, Thor, Nick Fury, X-Men, Vingadores, Inumanos, Pantera Negra, Groot e inclusive o Homem de Ferro, que apesar de ser desenhado (e desenvolvido) por Don Heck, quem elaborou sua armadura inicial foi Jack Kirby, mas ele tinha revistas demais para desenhar já na época, e assim a história acabou nas mãos de Heck (o mesmo acabou acontecendo com o Homem-Aranha, cujo design original foi de Kirby, mas o personagem passou para Steve Ditko).


Não há nenhuma dúvida para os historiadores de quadrinhos que Kirby era uma força criadora tão importante quanto Lee na Marvel dos anos 60, mas enquanto Stan Lee ganhava todo mérito por essas criações, palestrando em universidades, dando entrevistas para rádios, TV e jornais, Kirby se ressentia do quase total anonimato fora das paginas dos gibis. Então em 1970 ele saiu da editora, e foi para a rival DC Comics novamente, com uma proposta de contrato inovadora para a época de reconhecimento por suas criações – o que só mostra a incrível importância que Kirby tinha para a indústria dos quadrinhos, pois nenhum artista jamais tinha conseguido tal acordo até então.
Kirby criou então uma espécie de microverso dentro do Universo DC que chamou de “Quarto Mundo”, isso é, revistas que faziam parte do Universo DC, mas eram o próprio cantinho de Kirby, sobre o seu comando. Foi nessas revistas que criou inclusive DARKSEID, outra das suas mais famosas criações (e que a Marvel de forma sem vergonha não demorou pra plagiar criando Thanos. Era como se mesmo sem Kirby trabalhando pra eles, não pudessem viver sem a força criadora do REI). Outros personagens desse período são Senhor Milagre, Etrigan, OMAC e Kamandi.
As revistas não venderam tão bem quanto se esperava, a não ser Kamandi. Talvez por serem complexas demais para a época, mas diga-se de passagem, o enredo de NOVOS DEUSES inspirou a própria Star Wars, como todo fã esperto de quadrinhos sabe. Então Kirby voltou a Marvel mais uma vez, onde criou outra rodada de personagens, como Os Eternos, Homem-Máquina e Moonboy & Dinossaur Devil. No entanto, a falta de reconhecimento o levaram novamente a sair da editora, e agora de vez, iniciando um processo contra eles para tentar reaver suas criações.
Kirby faleceu em 1994, no entanto, o processo, parado por muito tempo, foi retomado, nos últimos anos por sua família. Provavelmente ANIMADOS com o sucesso dos filmes da Marvel e com a notícia que Stan Lee haveria ganho 2 milhões de dólares APENAS com o primeiro filme do Homem-Aranha. Em 2014, após longa batalha jurídica, a família Kirby conseguiu um acordo onde iria receber royalties por cada aparição dos personagens criados por Jack. Foi quando as mudanças nos personagens – que já estavam em andamento desde 2011 – quando o processo se intensificara – começaram a se avolumar. Consegue acompanhar o raciocínio?


Nos últimos seis anos, de uma hora pra outra, a Marvel passou a trocar as identidades, visuais e até gêneros de seus principais personagens – principalmente aqueles (co)criados por Jack Kirby. Esse pareceria um movimento burro se lembrarmos que as versões que estão no cinema são as originais, perdendo assim a chance de conquistar novos fãs para os quadrinhos. Assim como as vendas vem caindo nos últimos meses devido a enorme rejeição do público não só às mudanças propostas, mas a forma que estão sendo feitas, difamando os próprios personagens originais que foram tão queridos pelos leitores ao longo de décadas.
Vamos pensar mais um pouco. Não apenas os personagens mudaram. Mudar personagens é algo que acontece de vez em quando nos quadrinhos e puramente natural. Mas nunca isso foi feito de forma tão rápida, tantos em tão pouco tempo. E nunca os heróis originais foram tão maltratados, transformados em vilões, incompetentes, obtusos, meros coadjuvantes no máximo de suas próprias revistas, quando não apenas memórias a serem esquecidas.
Como o caso de tornar o Capitão América original, Steve Rogers – personagem que NÃO FOI CRIADO POR STAN LEE – num odioso nazista que sempre fingiu ser herói ou foi manipulado para tal; o virtuoso Thor de repente ser indigno para empunhar o próprio martelo, além de perder um braço; Tony Stark não ser nem um Stark, mas filho adotado; o Quarteto Fantástico simplesmente DEIXOU DE EXISTIR; Bruce Banner ser friamente morto; Hank Pym virou o Ultron; somente pra citar alguns.
Todos esses heróis agora tem outra identidade, na maioria deles são mulheres, ou de outra etnia (ou ambos). Ou seja, a mudança é mesmo radical no sentido de mudar completamente a APARENCIA do personagem em si, como se fosse… UM NOVO PERSONAGEM.
No caso do Homem-Aranha, personagem que é considerado criado por Stan Lee & Steve Ditko, Peter Parker ainda está por aí, mas só pro caso da família Kirby provar seu ponto (que Kirby ajudou a criar o herói) há uma versão alternativa dele com o mesmo nome, outro Homem-Aranha, cuja identidade secreta é um jovem negro chamado Miles Morales, com uniforme completamente diferente.
Então como dizia Scott Fitzgerald: “Eu não acredito em bruxas… mas que elas existem, existem”. Ou no mínimo há algo curioso no Reino da Dinamarca, como diria Shakespeare. Será que todas essas mudanças não são uma forma que a Marvel elaborou pra escapar de pagar royalties a família Kirby ou mesmo um plano b para o caso desse processo evoluir e a editora acabar perdendo os próprios personagens?
Pois mesmo se perdesse os direitos de usar os NOMES dos heróis, eles já estão estabelecidos. Podem manter Sam Wilson usando o mesmo uniforme, basta chamá-lo Capitão Liberdade, Cidadão América, ou algo assim; o mesmo pra Hulk ou pro Hulk coreano; o homem-aranha negro pode virar Spiderboy; a nova homem de ferro já chama a si mesma de Iron Heart; e no caso da Thor, nem precisaria mudar de nome, pois por ser baseado na mitologia nórdica é de domínio público.

Como dizíamos antigamente, se essa teoria tem algum fundamento, “só o Vigia sabe”, mas até o Vigia (outro personagem criado por Kirby) MATARAM, o substituindo pelo velho Nick Fury original agora envelhecido e irreconhecível, enquanto seu nome foi assumido por um filho que é a cara do Samuel L. Jackson que nessas décadas todas jamais suspeitávamos que existisse em algum lugar – até aparecer os filmes.

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Nano Falcão

2 Comments

  1. Tem um erro no texto: o visual criado pelo Kirby para o Aranha não foi aproveitado. O uniforme clássico do herói foi obra do Steve Ditko, logo Kirby não tem relação direta com o personagem, como sugere a imagem.

  2. Faz muito sentido o assunto abordado. Como a história é sempre contada pelos sobreviventes, e o mestre Kirby já se tornou um ETERNO, um viajante dos cosmos (mas não sem antes nos deixar um legado de belíssimas obras e universos criativos).Gostaria muito que fosse feito justiça.

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