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OPINIÃO: A QUEDA DAS VENDAS DA MARVEL É RESULTADO DA MUDANÇA DO SEXO DOS PERSONAGENS?

Substituição de principais personagens por mulheres tenta consertar décadas de falta de personagens femininos proeminentes.marvel-girls

O Hulk agora vai ser mulher. Ou melhor A Hulk. Não, Bruce Banner não mudou de sexo. Aliás, se você não acompanha as revistas em quadrinhos atuais da Marvel, já há algum tempo ele nem era mais o Hulk. Este era o adolescente Amadeus Cho, um “coreano-americano” estabelecido no papel desde o ano passado, dentro da nova política da editora de ter mais super-heróis representando as minorias.

Mas parece que nem os asiáticos – uma das menores minorias nos EUA, já que representam pouco mais de 5,6% da população norte-americana – estão a salvo da “onda de empoderamento feminino” que varre a editora. Desde o sucesso da nova Thor (o antigo deixou de ser “digno”, provavelmente por ser homem :P), e com o estabelecimento da adolescente X-23 como a NOVA Wolverine (o original MORREU), a Marvel decidiu não parar por aí.

No mês passado, foi anunciado que a nova HOMEM DE FERRO (isso mesmo a novA HOMEM) seria uma adolescente negra chamada Riri Williams. E agora este mês, a novidade é que Jennifer Walter, a clássica SHE-HULK (No Brasil, Mulher-Hulk) agora será simplesmente chamada de HULK. O que vai acontecer com Amadeus Cho ainda é um mistério. Sua nova revista não vende bem – mas até aí muitas revistas da Marvel também não estão vendendo bem atualmente. Talvez seja mais provável que a Marvel fique com mais de um Hulk, já que a nova tendência da editora é ter vários personagens com o mesmo nome, mas representando etnias diferentes: por exemplo hoje há um Capitão América negro, outro branco; um Homem-Aranha branco, outro negro; Fora que o antigo Thor continua sendo publicado, e buscaram um Wolverine idoso de outra dimensão pra ter sua própria revista também.

Em suma, a editora entrou numa onda de “populismo genérico” como estratégia de falar a um publico maior. No entanto, apesar das “boas intenções”, o mesmo não vem se configurando nas vendas. Há dois meses seguidos, a editora já perdeu a liderança das vendas para a DC Comics, que capitaneada pela fase “Rebirth” faz um movimento contrário ao da Marvel, que é a promoção dos personagens “icônicos” da editora. Se isso parece “conservador” num primeiro momento, vale lembrar que a ARLEQUINA, uma personagem já com 20 anos de estrada é um dos principais sucessos deste “Renascimento”. Talvez a DC não esteja tão preocupada em transformar metade do seu elenco de personagens em mulheres simplesmente porque ao contrário da Marvel, a “Distinta Concorrente” sempre teve mais sorte com revistas estreladas por protagonistas femininos.

Nem é preciso falar da MULHER-MARAVILHA, a mais famosa da super-heroínas dos quadrinhos, publicada ininterruptamente há 75 anos pela editora. Outro exemplo é SUPERGIRL, que em 2018 fará 60 aninhos de existência. Também com 75 anos está a MULHER-GATO, inicialmente uma vilã do Batman, que desde os anos 90 tem sua própria revista em quadrinhos. No entanto, quem anda vivendo uma boa fase além da ARLEQUINA, em termos de popularidade é a BATGIRL (Barbara Gordon) que no ano que vem fará 50 anos de sua criação. Além de sua própria revista, a heroína encabeça outro gibi, com suas parceiras de combate ao crime AVES DE RAPINA, uma equipe só de mulheres criada também no fim dos anos 90 e publicada desde então pela editora.

Mas pra não dizer que não falei das novidades, a DC tem sim também feito alguns novos “empoderamentos”: foi criada a primeira MULHER LANTERNA VERDE DA TERRA, Jessica Cruz, que também é latina. Ela estrela a nova revista “Green Lanterns”, ao lado do parceiro afro-americano (e mulçumano!) Simon Baz. Isso não muda o status dos personagens clássicos (como Hal Jordan, o Lanterna mais popular que continua sendo publicado), porque o conceito da série é de uma TROPA, e desde os anos 70 (com John Stewart, o primeiro lanterna verde negro) há sempre mais de um Lanterna Verde terráqueo por aí. Lanternas mulheres alienígenas sempre estiveram por aí, aliás. Jessica Cruz é apenas a primeira terrestre.

Em suma, enquanto na Marvel o empoderamento parece uma urgência, na DC ele já está estabelecido. Como consequência, a DC não tem necessidades de “mudanças traumáticas” que podem afastar leitores acostumados com personagens que aprenderam a amar como ícones. A grande verdade é que por décadas a Marvel sempre relegou as mulheres a segundo plano. Nos anos 60, os personagens femininos máximos da editora não passavam de mulheres chorosas e meras coadjuvantes de seus maridos e namorados, como Susan Storm (a Mulher Invisível), a Vespa (esposa do Homem-Formiga), Feiticeira Escarlate e Jean Grey (esposa do Ciclope). Mais ousada mesmo só a Viuva Negra, mas sempre relegada a papel de vilã e depois coadjuvante (só foi ter revista própria nos anos 2000 e por causa dos filmes dos Vingadores!).

Nos anos 70 a Marvel ensaiou umas tentativas de lançar mulheres em títulos próprios, como Shanna (durou 4 edições!), Miss Marvel (25 edições), Mulher-Aranha (50 edições) e Mulher-Hulk (24 edições) – reparem que todas elas eram versões femininas de heróis estabelecidos da editora: Ka-Zar, Capitão Marvel, Homem-Aranha e Hulk. Todas retumbantes fracassos! (Posteriormente a Mulher Hulk foi relançada como gibi humorístico adquirindo certo sucesso cult e durando bem mais, 67 edições). No entanto, nos anos 90, enquanto acontecia a ascensão da mulherada na DC (com uma nova Supergirl, Aves de Rapina, um gibi para a Mulher-Gato, etc), a Marvel pouco fez. O resultado é tentar recuperar o tempo perdido transformando as principais marcas da editora em mulheres. Com um efeito adverso do esperado: apesar de pesquisas recentes apontarem que 48% do mercado de leitores de quadrinhos sejam mulheres, após o sucesso inicial da nova Thor, está difícil emplacar o resto. Talvez porque a Marvel tenha esquecido de uma coisa: a maioria das mulheres talvez NÃO LEIA revistas de super-heróis – que é um conceito meio machista se a gente parar pra pensar, isso de combater o crime descendo a porrada, mesmo se quem desce a porrada for uma mulher. Muitas leitoras gostam de mangás ou revistas “indies” que tratem de enredos mais dramáticos e sofisticados. Como as hqs da Image e Vertigo, por exemplo.

Afora que as próprias leitoras de super-heróis se forem parecidas com os leitores homens no seu amor pelos personagens, devem ter resistência a mudanças. Elas adoram a Tempestade e a Kitty Pride, mas sempre tiveram uma quedinha pelo selvagem Wolverine que a editora matou pouco tempo atrás. Já tive namoradas que liam quadrinhos, e os gibis preferidos delas eram SANDMAN ou BATMAN. HQs estreladas por CARAS. Muitas meninas liam Novos Titãs, e eu achava que era por causa do grande numero de mulheres na equipe. Ledo engano: quando perguntei, a resposta é que elas achavam Dick Grayson, o Asa Noturna, “um gato”.

Mulheres leitoras de quadrinhos curtem super-heróis atléticos em trajes justos exatamente como os rapazes curtam heroínas sensuais em trajes reveladores? Que surpresa, né? Parece que a turma que discursa sobre “empoderamento” esquece de uma coisa: por baixo de nossos cromossomos somos todos seres de desejo e da necessidade de realiza-lo através das nossas imaginações. Razões que os heróis são tão importantes para as meninas, quanto as heroínas para os rapazes.

Não é um erro promover mulheres a papéis principais de destaque no universo da fantasia. É louvável inclusive. O problema da Marvel talvez esteja mais no exagero e também na falta de criatividade, de ao invés de criar novas personagens femininas, como a DC sempre fez, simplesmente trocar os clássicos de outrora por novas versões femininas. Um ou outro personagem é até interessante, mexer um pouco com o status da coisa. Mas de repente TODO MUNDO, fica forçado e nem tem eco no mundo real: a maioria dos bombeiros e policiais continuam sendo homens, e acredito que as mulheres se veem como pessoas que tentam resolver as coisas com a cabeça, ao contrário de com os músculos, como fazem essas heroínas masculinizadas da Marvel, cuja única diferença para suas contrapartes masculinas é ter uma periquita no lugar do bingulim.

Em nada “empodera” ter um heroína militarista como a antiga Miss Marvel transformada em “CAPITÃ MARVEL” querendo descer porrada em gente que ainda não cometeu crimes só porque algum vidente pode prever quem vai prever crimes ou não. Ela é um dos lados da nova Guerra Civil da Marvel, e está na cara que vai ganhar, pois seria “machismo” se o Homem de Ferro (que irá ser substituído na saga por uma menina adolescente como anunciado) ganhasse, sabe?

Por isso não é nenhuma surpresa que muitas leitoras mulheres, principalmente feministas, não tem comprado essas revistas “empoderadas” da Marvel. Como dizia o saudoso Bezerra da Silva, “o problema de todo malandro é achar que todo mundo é otário”. Querem empoderar? Que tal colocar mais mulheres no comando da editora, que é presidida majoritariamente por homens desde sempre? A DC por exemplo é presidida por Diane Neelsen desde 2010. E ela nem é a primeira na função. Todo mundo sabe que a melhor presidente que a DC teve foi a Janet Khan (1976-2000). Que tal trocar também o sexo do Joe Quesada pra ver se melhora?

Nano Falcão

5 Comments

  1. O problema nem é mudar ou criar versões femininas deles, mas sim destruir os personagens antigos para eles serem substituídos como no caso aconteceu com o Thor, Hulk, Capitão America, etc e ainda criar personagens sem carisma algum para substituir eles

    • Verdade. A DC acabou de criar uma Superwoman e um Superman chinês, mas o original é o principal, com suas duas revistas quinzenais, além de estar tanto na Liga da Justiça quanto no gibi da “Trindade”.

  2. Meu interesse é pelos clássicos da Marvel! Comecei a adquirir algumas edições da Marvel Omnibus e estou completamente fascinado! Quanta qualidade! Penso que é o melhor da Marvel em publicações no momento! Como não acompanho as tramas atuais dos personagens Marvel, não tenho o que dizer sobre esse assunto! Por isso, li esse texto esclarecedor para tentar entender as mudanças recentes no universo Marvel! Muito obrigado!

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